sábado, abril 23, 2005

Santo Antão - do Porto Novo à Cova

A maravilhosa ilha de Santo Antão... tenho tanto que vos dizer sobre esta ilha, e ao mesmo tempo as palavras não chegam para descrever a imensidão de tudo que encontrei ali....
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Santo Antão significa Santo António, e como devem imaginar com as festas populares que se aproximam, esta deve ser a ilha indicada para ir aos bailes e às grelhadas (em vez de desfile, de noivas e de sardinhadas...).
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Estive nesta ilha durante o fim-de-semana de 23 e 24 de Abril, no dia de anos da minha avó Mariana e no dia de anos de uma amiga minha, respectivamente. Nesta altura estava cá a minha mãe e a minha tia, e estávamos as três curiosas para visitar a ilha mais verde de Cabo Verde.
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Partimos no barco Barlavento às 8h da manhã, sem atrasos. Mal pus os pés no barco fiquei imediatamente enjoada... acho que de manhã comi depressa demais e ainda por cima bebi leite... devia ter comido algo mais consistente.
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Fizemos a viagem tranquila, em pleno oceano atlântico... a cor da água é tão diferente!!! dá-me a sensação de um mar tão fundo... cheio de coisas que não vejo... foi aqui que me apercebi realmente que estava numa ilha, no meio do oceano... e que o mar que eu conheço de Portugal é o que me traz segurança, para mim este novo mar é tão imenso e tão potente que me fez sentir pequenina e frágil, dentro de uma casquinha de nós durante todo o percurso de 45 minutos entre estas duas ilhas do Barlavento do Arquipélago de Cabo Verde.
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Santo Antão foi a primeira ilha a ser habitada neste país, e os primeiros residentes foram portugueses que se dedicaram ao cultivo de várias culturas e à produção de gado. Apesar desta ilha ser enorme, quando comparada com as outras, e de ter muito mais recursos do que as outras, o facto de ser muitíssimo montanhosa dificultava a instalação de um porto seguro para grandes embarcações. Por isso, aqueles que decidiram alargar os seus horizontes de negócio com o exterior e partir para outras terras e aventuras, atravessaram o canal que separa as duas ilhas e foram-se instalar no Mindelo, em S. Vicente. E porquê no Mindelo? porque aqui se encontra uma das mais seguras baías do mundo. Aqui podem entrar grandes navios, sem dificuldades, e aqui encontram sempre um porto seguro - Baía do Porto Grande.
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Mas voltando a Santo Antão.
Depois de ter resistido ao enjoo durante toda a viagem, ao contrário de alguns dos companheiros de viagem... e depois de ter passado 45 minutos à procura, sem sucesso, de algum ser vivo, pequeno ou grande, que se cruzasse no nosso caminho... desembarcámos no Porto Novo, cidade mais importante da zona seca da ilha de Santo Antão.
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A ilha de Santo Antão está dividida em duas zonas, uma seca e árida e uma húmida e verdejante. Eu sabia disto, mas nunca pensei que a diferença fosse assim tão notória... e para além disso, depois de 3 meses a viver em S. Vicente, a zona seca da ilha de Santo Antão parecia-me bem mais verdejante...
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Saímos do barco, e com a ajuda de uma jovem mulher santantonense, dirigimo-nos ao Hiace vermelho do Dongo, para fazer a viagem até à Ribeira Grande, no outro lado da ilha.
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As estradas da ilha são feitas todas em calçada... é um trabalho impressionante que demonstra a dedicação, empenho e força das pessoas que habitam nesta ilha. A medida que íamos subindo de Porto Novo até à Cova, a paisagem ia-se alargando até uma extensão incrível de terra seca com algumas acácias americanas plantadas aqui e ali. Esta subida revelou-me a verdadeira dimensão da ilha de S.Vincente, que se via lá ao longe... realmente eu vivo numa ilha, numa pequeníssima ilha... e agora estou a passear numa ilha bastante maior... mas que não deixa de ser uma ilha...
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Estávamos a chegar à Cova, e eu ainda estava deslumbrada com a paisagem de terra e pedra que me ficava para trás, o carro do Dongo (nosso motorista) dá então uma curva na estrada e eu fico por momentos sem reacção... sem conseguir sequer respirar... passados uns segundos, enquanto tentava preparar a máquina fotográfica, emiti uns sons que pretendiam ser "ahhhh... pinheiros, montes de pinheiros... montes de verde.... que lindo....". Vocês não sabem, nem eu vos sei explicar, qual é a sensação de ver o inesperado... estive 3 meses sem ver árvores frondosas, sem ver verde, sem cheirar verde... e fazia-me alguma falta... mas quando vi aquela montanha de verde a erguer-se por cima das nuvens.... foi.... foi muito mais do que eu estava à espera... foi como se estivesse com fome e sede e me pusessem o melhor banquete à frente... Não vos sei explicar...
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A Cova fica no topo das montanhas, e é uma caldeira de vulcão que abateu um pouco. Aqui o ar já é húmido e já começo a ter frio... quase que me sinto tentada a vestir o casaco, mas resisto porque não posso largar as máquinas fotográficas, não posso parar de fotografar... a cada metro que avançamos há um novo enquadramento... quase um novo ponto de vista... sinto-me como uma criança que descobre pela primeira vez o brinquedo mais maravilhoso do mundo... Não quero sequer piscar os olhos para não perder pitada do que vejo... só quero inspirar aquele ar puro e não quero nunca expirar para não perder cada cheiro... aquele cheiro que o meu corpo precisava de sentir... cheiro puro, a verde e a paz...

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