terça-feira, fevereiro 19, 2013

O caminho da felicidade


Decidi há muitos anos que queria ser feliz. Mas entre o decidir e o agir fui sendo feliz quase por acaso, quase sem esforço da minha parte e, devo dizer, tenho tido sorte porque tenho sido feliz.

Há 3 anos atrás, no entanto, a vida decidiu dar-me mais uma daquelas voltas que quase me deitou por terra, e foi a muito custo que me fui levantando... cheguei a comentar comigo mesma que dei demais para coisas que já não fazem sentido. Cheguei a dar sangue suor e lágrimas e foi nesse momento que percebi que tinha que mudar algo, e tinha que ser eu, apenas eu, o motor desta mudança.

Passaram-se estes 3 anos e percebo que o percurso foi longo, por vezes penoso, quase sempre difícil, mas fazível. Tão fazível que aqui estou a percorrer, agora de sorriso no rosto, o meu caminho da felicidade.

Com a ajuda de muitas pessoas (família e de muitos amigos, alguns deles que já considero família também), saí do buraco onde me deixei cair. Saí mas continuava perdida quanto ao caminho que queria percorrer de seguida, e por isso decidi fazer uma pausa para pensar sobre o que quero para mim.

Fiz algumas sessões de coaching com uma grande amiga. Todas as sessões foram duras e emocionalmente carregadas. Ria e logo depois chorava, retirando de mim a carga que tinha acumulado ao longo da minha vida, em particular desde a perda do meu pai, do meu avô e a também a carga profissional exagerada desde há 3 anos.

Nestas sessões fui confrontada com perguntas minhas que surgiram pela boca dela. A principal e recorrente "O que queres?" era no início demasiado difícil de responder, mas por ser demasiado vaga "Quero ser feliz".

E surge de seguida a pergunta cuja resposta não é simples, nem única, nem mesmo imutável, "O que te faz feliz?". A minha resposta foi inicialmente "Não sei", mas depois fui reflectindo sobre o assunto e percebi novamente (já havia percebido isto na minha adolescência) que a felicidade está nas pequenas coisas. Obviamente não só nas pequenas coisas, nas médias e grandes também, mas foi nas pequenas coisas que percebi que sou uma pessoa naturalmente feliz. Só preciso não me esquecer disto, todos  os dias.

Quando me comecei a lembrar disto todos os dias (há mais ou menos 1 anos atrás) comecei a perder os 20 kg que tinha a mais, retomei o contacto com os amigos que por sorte não fugiram do meu mau humor, voltei a ler, voltei à jardinagem, voltei  a passear. Voltei a fazer todas estas pequenas coisas que me dão muito gozo.

Voltei também a namorar... :) essa grande coisa que finalmente deixei que acontecesse na minha vida. Estar apaixonada é mesmo das melhores sensações do mundo, porque quando nos apaixonamos por alguém ou mesmo por algo, no fundo apaixona-mo-nos pela vida e pelo mundo que nos rodeia. E isso é tão bom...


Mas quero falar-vos de hoje. Hoje o caminho que trilhei trouxe-me a Mocímboa da Praia, onde inicio um novo projecto de vida profissional. Decidi finalmente abrir a minha própria empresa - Magambi. Pode não dar certo, mas também pode dar certo. Não tenho medo, apenas esperança no que o futuro que trará.

Estava aqui sentada a trabalhar no meu primeiro projecto, quando percebi que me apetecia escrever, porque me sinto feliz. Estou sozinha num dos sítios mais calmos do mundo, com vista para a foz do rio, no meio da província de Cabo Delgado, a ser atacada por todo o tipo de insectos (que nem os milhares de osgas conseguem comer), e a ser protegida por uma família de canitos que me adoptaram desde que cheguei.

Aqui faz calor e está uma humidade daquelas que mantém o céu cinzento todo o dia. Quase que chove, mas não chove quase nada. E eu gosto.

Os sons são os do  mato, para mim alguns deles indecifráveis, mesmo depois das inúmeras idas ao kruger.
Fico pensativa... aliás, contemplativa do que me rodeia.


Percebo,com tudo isto, mais uma vez, que o caminho para a felicidade se faz com ligeiros e também duros sobressaltos, faz-se todos os dias, a cada momento, a cada passo.


Parei este bocadinho o trabalho, porque me apetecia escrever, porque me sinto feliz. E a felicidade é algo que tenho que partilhar convosco.

sábado, junho 09, 2012

Laricia Sofia

Esta semana foi cansativa mas positiva :) muito positiva.
Na 2ª feira nasceu a Laricia Sofia, a filha mais nova da minha empregada / amiga Teresa. A Teresa, para quem não sabe, trabalha comigo desde que eu vim para Moçambique. Damo-nos muito bem e damos apoio uma à outra, sempre que é necessário. Cozinha maravilhosamente bem, e tem treinado outras empregadas de amigos meus, adora e cuida dos meus bixos quando estou fora, e gere toda a casa. Sem a ajuda dela a minha vida aqui seria um stress imenso.
Então 2ª feira a bebé nasceu, às 21:15, com 3.120kg, depois de muitas horas em trabalho de parto (desde sábado á noite).
Durante os 9 meses não se escolheu nome, até porque nem sabíamos se ia ser menina ou menino. A minha mãe dizia que ia ser menina, e eu e a Teresa estávamos convencidas que seria um menino.
A menina nasceu bem, é linda, super calma, um doce... hoje fui conhecê-la e dar-lhe o nome.
Na casa da Teresa, onde sou sempre bem recebida, estava eu, ela e as duas filhas já grandes. Enquanto a bebé mamava tranquila, falámos sobre os nomes, e graças à tecnologia móvel conseguimos pesquisar o significado de alguns nomes. A decisão foi relativamente rápida, quanto ao 2º nome, todas concordámos com Sofia.
O primeiro nome é que foi mais difícil e foi a Teresa que sugeriu, Laricia.
Laricia, ou Larissa ou ainda Larissia, é um nome de origem grega que significa "cheia de vida", "cheia de alegria", "tem charme", "é agradável". Na mitologia grega é o nome de uma ninfa de Thessaly. É ainda o nome de uma das luas de Neptuno.
Sofia é também um nome de origem grega, que significa "sabedoria", "a sábia".
Bem vinda a este mundo Laricia Sofia, que a tua vida seja recheada de amor e felicidade.




segunda-feira, maio 28, 2012

Como ser feliz...


DESCOBERTA DO AMOR

Ensaia um sorriso
e oferece-o a quem não teve nenhum.
Agarra um raio de sol
e desprende-o onde houver noite.
Descobre uma nascente
e nela limpa quem vive na lama.
Toma uma lágrima
e pousa-a em quem nunca chorou.
Ganha coragem
e dá-a a quem não sabe lutar.
Inventa a vida
e conta-a a quem nada compreende.
Enche-te de esperança
e vive à sua luz.
Enriquece-te de bondade
e oferece-a a quem não sabe dar.
Vive com amor
e fá-lo conhecer ao Mundo.

Mahatma Gandhi

Um aniversário diferente

Escrevo a história do meus 34º aniversário, porque não quero nunca esquecer-me destes dias. Todos os meus aniversários têm sido especiais e lembro de cada um deles. Mas nunca me tinha acontecido, durante o meu aniversário lembrar-me tão claramente dos outros aniversários... dos amigos que estiveram aqui e dos que não puderam estar.
Cada aniversário é especial, e é uma oportunidade única de nos sentirmos rodeados de felicidade e carinho, abraçados pelos braços da amizade. Sim,  cada aniversário é especial, mas este ainda mais, porque num único aniversário recordei-me de todos os outros, por isso foi um aniversário onde estiveram todos presentes :) mesmo os ausentes...

O aniversário começou na sexta-feira no momento em que entrei no carro da minha grande amiga P.. Éramos 4, eu apenas conhecia a P. mas ao fim de uns 100 km já cantávamos alto e bom som, com muito movimento, as músicas boas e não tão boas, que nos fazem recordar, sorrir e cantar.
Já na Swazilândia o frio começou a apertar e por cima da blusa de alças fui vestindo casacos, enrolei o lenço ao pescoço e já à entrada do festival Bushfire esperámos um outro grupo de amigos com quem tínhamos combinado ir jantar.
Àquela hora só um sítio ainda tinha comida, o Royal Swazi Hotel. Para aquecer pedimos uns shots de Kahula, Amarula e natas, era já quase meia-noite e a comida veio acompanhada de um bom vinho. A conversa e risadas fluíam com uma naturalidade quase surpreendente.

Pensei que já que me estava a mimar com a presença de amigos, estes e os que vim a encontrar ao longo do fim-de-semana, achei por bem mimar-me a sério para o meu fim-de-semana de aniversário.
O Hotel estava cheio, nós tínhamos reservado umas casinhas num lodge no meio de um parque natural, mas com aquele frio todo lá fora e o conforto do Royal Swazi Spa, achei melhor ver se conseguia arranjar um quarto. E depois de alguma conversa, o bláblá de que faço anos, etc etc, consegui um quarto e ainda por cima a metade do preço no Lugogo Hotel (mesmo ao lado e que é do mesmo grupo do Royal). Alguém tinha cancelado uma reserva à última da hora.
Quando chego ao quarto tenho um dilema... em qual das 2 camas de casal me havida de deitar :) Há pessoas com sorte, eu sei, e acho que fui uma delas.

Não dormi muito mas o suficiente para deixar o stress da semana de trabalho para trás. Acordei mesmo a tempo do pequeno-almoço gigantesco, tomei banho e vesti-me.
Era sábado dia, dia de festival.
Fui ter com o resto dos amigos ao Royal, aproveitei para comprar um gorro de lã e um cachecol, e assim fiquei equipada para o frio da noite de festival (frio a sério acho que chegámos a ter 7ºC).
Fomos almoçar ao Calabash, onde já não ia há 22 anos, desde que era pequenina. Entro na sala e vejo uma mesa grande lá ao fundo e praticamente todos os meus amigos (dos que foram ao festival) estavam lá, para me dar um beijinho no último dia dos 33 anos e começarmos a festejar os 34 logo ali.
Éramos mais de 30 :), seríamos 34? talvez.
Comemos da melhor carne, entradas fabulosas e no fim um bolo de chocolate divinal que deu para todos. As velas não apagavam apesar da minha determinação em as apagar. Eram daquelas velas chatas que não param de acender outra vez.
No fim do bolo uma rodada de shots, de uma qualquer coisa demasiado alcoólica, e transparente. Depois do shot é que vimos que era o álcool que estava dentro de uma garrafa com cobras e lagartos em conserva :) um bocadinho melhor do que o que bebemos no Vietnam ;)
Tive direito à sempre única música dos parabéns que este ano foi mais ou menos assim "Parabéns a você, Só amanhã!, Nesta data querida, Só amanhã!,...." foi muito bom :)

Saímos do restaurante e fomos para a House on Fire onde decorre o festival Bushfire. Um espaço ao ar livre com construções estranhas de uma mente criativa completamente louca, mas fenomenal. O espaço é mesmo espectacular.
O ritmo da festa eram as músicas do mundo, com um toque muito especial de África. Bons concertos, boa onda, boa gente, muitos sorrisos, abraços e mimos dos amigos que rodeavam. O calor humano era tanto que só ao fim de umas horas tive frio suficiente para vestir o casaco. Gritei, saltei, dancei e cantei... adorei :)

Quase perto da meia-noite consegui comer um hot-dog daquelas salsichas sul-africanas que detesto, mas como há alturas que não vale a pena ser esquisita.
Rapidamente esqueci os apertos da fila da comida (a comida acabou nas outras barraquinhas), esqueci a fome e com a música de fundo recebi abraços e beijinhos dos amigos que ainda se aguentavam no festival. Era dia 27 de Maio, começava assim o meu dia de anos em pleno festival.

Dancei, dancei até não poder mais... as pernas doíam tanto... nem me lembro de alguma vez ter tido tantas dores...
Já estoirada mas com um sorriso nos lábios voltei para o hotel, dormi um pouco e no meu aniversário fui tomar outro pequeno-almoço fantástico, e segui para as massagens :)
1:30 de massagem, daquelas a sério, com pedras quentes ao som dos pássaros no spa no meio do jardim. Rejuvenesci.

Seguimos para um almoço já tardio mais uma vez no Calabash, mas desta vez éramos menos e daqui seguimos para Maputo, onde os meu "bixos" esperavam ansiosamente por mim. O Pumba, a Matilde e o Valentim, brindaram-me de mimos enquanto recebia chamadas de Portugal e de outros lados do mundo...

Mais uma vez senti-me abraçada por todos, amigos e família, senti-me abraçada por aqueles que me fazem muita falta, mas que estiveram comigo neste dia especial.

Obrigada amigos, por me darem mais um dia (ou vários dias) tão especial.

Beijinhos grandes para todos do fundo do coração.

Para os meus amigos...

Quero ser teu amigo
Nem demais e nem de menos
Nem tão longe e nem tão perto
Na medida mais precisa que eu puder
Mas amar-te como próximo, sem medida ...
E ficar sempre em tua vida
Da maneira mais discreta que eu souber
Sem tirar-te a liberdade
Sem jamais te sufocar
Sem forçar a tua vontade
Sem falar quando for a hora de calar
E sem calar quando for a hora de falar
Nem ausente nem presente por demais,
Simplesmente, calmamente, ser-te paz
É bonito ser amigo,
Mas confesso,
É tão difícil aprender,
Por isso, eu te peço paciência
Vou encher este teu rosto
De alegrias, lembranças!
Dê-me tempo
De acertar nossas distâncias


(Autor: Fernando Pessoa )

quarta-feira, maio 23, 2012

Mudanças

Há dias... vários dias... que penso que tenho que escrever isto ou aquilo, mas depois penso que o melhor é mesmo guardar para mim as palavras, tal como guardo para mim as imagens (e por isso tenho tão poucas fotografias). Mas depois há dias como o de hoje, em que sinto que escrever me faz bem, me faz pensar num futuro lá longe, onde vou ler o que agora escrevi e vou recordar o que senti, o que vivi, o que experienciei.
Hoje é um apenas mais um dia normal, mas no meio de uns meses que em nada têm sido normais. Já vos contei a história da minha vida? venho contando aos bocadinhos... mas, e a história da minha vida desde o início deste ano? essa ainda não.
Então em breves palavras conto o que me vem à cabeça sem grande ordem lógica. E faço-o hoje porque perdi mais uma tia, daquelas do coração, e percebi (mais uma vez, infelizmente) que a vida são pequenos retalhos que partilhamos, pequenos momentos em que nos damos e em que recebemos o que os outros são.

Durante 3 anos andei a lutar para provar ao mundo e a mim mesma que era capaz de levar a avante um projecto profissional, que agora percebo era completamente louco, e que me desgastou fisica e psicologicamente, de uma forma que nunca pensei que fosse possível. Sem vos conseguir descrever os momentos que passei, falo apenas de alguns alertas que tive e que fui ignorando até estar à beira de um esgotamento.
 No primeiro ano do projecto, a felicidade que sentia por estar em Moçambique era tanta que o meu corpo foi sugado de toda e qualquer energia, sem que me apercebesse disso. Foi só no início do 2º ano de projecto que percebi que alguma coisa não estava bem.
Alergias, constipações, infecções e enxaquecas pareciam que estavam em disputa permanente para ver quem conseguia maior tempo de antena. Depois vieram os ataques de ansiedade durante o dia, depois ao acordar e mais tarde um aperto no peito constante que se agudizava quando o telemóvel começava a tocar. Inconscientemente associei o som e até mesmo a vibração do telemóvel a problemas de trabalho e a stress, e isso fez gerar mais stress.

Nesta altura fui a 2 médicos em Moçambique e 1 em Portugal, e mesmo assim foi difícil acreditar que algo estava errado comigo. Diagnosticaram-me uma depressão associada a um esgotamento físico. Nesta altura percebi que a pressão arterial normal não é 18 / 12, percebi que o meu corpo estava em stress constante, o colestrol altíssimo, os açucares também, e etc etc etc. Tive ordem imediata para parar, para dormir... caso contrário qualquer um destes médicos iria passar-me uma baixa médica.
Ok. Foi aqui que vi que exagerei, foi aqui que percebi que tinha que mudar de vida. Assim, lentamente, fui tentando por as peças do puzzle, que era a minha cabeça, no lugar.
Apercebi-me que não conseguia decorar mais nada, que não me lembrava de compromissos, que para pensar tinha que fazer um esforço brutal e mesmo assim pensava a passo de caracol, quando comparado com o meu eu passado que pensava à velocidade da luz.
Então, entrando no último ano do projecto programei umas férias e uma viagem que parecia demasiado arriscada e louca, mas que acabou por ser tão simples, tranquila, magnífica e centrada nas coisas belas e momentos que ficam na memória.

Esta viagem foi a volta a Moçambique. E foi aqui que se iniciou a minha verdadeira mudança. Foi depois da viagem que decidi que tinha que mudar a minha vida e voltar a agarrar as rédeas do meu destino. Foi durante a viagem que percebi que tinha vivido os últimos 12 anos a pensar na minha evolução profissional, e que me tinha, algures no caminho, esquecido de mim.
Decidi que até Fevereiro de 2012 tinha que tomar alguma decisão que implicasse mudança, e é essa mudança enorme que se está ainda hoje a processar em mim.

E em Fevereiro iniciaram-se então as mudanças. Pedi licença sem vencimento no grupo Águas de Portugal, abracei um desafio profissional diferente, mudei de casa, adoptei um gato para dar cabo das baratas e confusionar os meus canitos. Agora que já iniciei este processo de mudança percebo que ainda não acabou, e que afinal as mudanças que preciso são ainda mais profundas do que imaginei no início.
Preciso de voltar um bocadinho atrás no tempo e deixar de ser tão adulta e tão pouco criança. Não me apercebi desta mudança, mas crescer assim não me fez bem, foi muito rápido, e por pouco não perdi a o meu eu criança, aquele eu que deve sempre habitar em nós.
Mas a maior de todas as mudanças é o facto de eu agora assumir claramente que adoro viver aqui :) e, pelo menos por enquanto, é aqui que quero viver. Nesta terra que me abraça calorosamente desde o amanhecer, onde tomo o pequeno-almoço no quintal enquanto os canitos dormitam ao sol e o gatufis sobe às árvores.

É agora, antes de continuar neste processo de mudança, que tenho que vos dizer, olhando nos olhos de cada um (assim o imagino) "Desculpa por ficar tão longe, tanto tempo. Desculpa por ter decidido que agora vivo em África." e ao mesmo tempo dizer "Penso em ti todos os dias, sinto a tua falta todos os dias. Sinto falta das nossas conversas, dos nossos cafésinhos, do sorriso dos teus filhos, sinto falta de os ver crescer." .
Ainda ontem escrevi a uma amiga e disse-lhe "Espero que me compreendas, tu que me percebes tão bem" (tal como os meus amigos, aqueles do coração). Eu sei que compreendem incondicionalmente, porque isso é amizade, mas acho que vos devo uma explicação. Adoro ver-vos e, quando a distância não permite, adoro falar convosco ao telefone. Mas de cada vez que falo convosco choro por dentro com uma dor infinita que me custa tanto, mas tanto, aguentar. É por isto que não ligo tantas vezes... pelo menos não tantas como gostaria.

Não posso prometer nada neste meu discurso longo, nesta introspecção pública. Não posso prometer mais viagens a Portugal, visitas a toda a gente, mas uma coisa posso prometer, estão sempre no meu coração. E durante este processo de mudança foram vocês que me deram força para começar, e são agora também o que me move. A nossa amizade é uma parte fundamental da minha vida, e da minha felicidade. A única coisa que posso prometer, e prometo sempre a mim própria, é que todos os dias sou feliz, e se tal é possível, a mudança em curso tem apenas como objectivo trazer ainda mais felicidade para junto de mim.

terça-feira, março 27, 2012

O regresso do emigrante

Às vezes perguntam-me se penso em regressar a Portugal, e respondo que sim... penso nisso. E cada vez que vejo um amigo partir, dou por mim a pensar no meu regresso, enquanto lhes explico que já fiz um regresso e não foi nada fácil.
Serão estas as novas preocupações dos emigrantes, as grandes ansiedades, que aliadas à tão típica saudade, faz com que alguns dos novos emigrantes passem anos a pendulando entre ficar aqui ou finalmente regressar a casa.

Depois de 3 anos aqui (mais os 3 de quando era miúda) posso dizer que já vi demasiadas pessoas a ir embora, já vi como custa muito, a todos os que regressam, voltar a encaixar no dia-a-dia de Portugal. Por isso decidi escrever uma carta a um amigo que agora parte para Londres, fazendo uma pequena paragem em Portugal.
Escrevo para ele, mas é como se fosse para todos, e principalmente para mim, para um dia voltar a ler o que escrevo, na esperança que as minhas próprias palavras me dêem a força que preciso para partir e deixar o continente que adoro... África.

" (...)
Sobre o teu regresso aí… eu sei que é doloroso, eu sei que é estranho e que já não encaixas, principalmente nesta altura de crise. Mas apesar disso, repara como sabe bem ir ao café, andar pelas ruas da cidade com essa luz que só Lisboa tem, como é fantástico o nosso frio oceano atlântico, e como é bom rever família e amigos, e perceber que aqueles amigos continuam sempre nossos amigos.

Escrevo-te assim, porque quando regressei de Cabo Verde, foi um choque demasiado grande voltar a viver em Portugal e, sendo honesta comigo própria, acho que encaixo melhor em África do que em Portugal, pelo menos nesta fase da minha vida.
Mas tenho quase a certeza que um dia também eu farei o regresso por vontade própria, e nessa altura sei que vou sofrer por antecipação e sei que vai doer quando aterrar em Lisboa de armas e bagagens, mas também sei que à primeira oportunidade vou a Sintra comer as queijadas, vou a Óbidos andar na muralha do castelo e vou à praia da Arrifana brincar com a prancha de bodyboard nas ondas pequenas de verão.

E se em vez de Portugal decidisse regressar ao velho continente, escolheria uma cidade como Londres, Amesterdão ou Barcelona, para morar.
E se fosse em Londres, comprava um carro para poder ir passear para o “countryside” aos fins-de-semana, ir a Bath, a Stonehendge, a Portsmouth, a Stratford-upon-Avon ou a Cambridge.
E nos fins-de-semana que não me apetecesse sair da cidade, ia fingir-me de turista e comprava um bilhete para um musical, ou ia passear pelos mercados que vendem um pouco de tudo, ou ia esticar-me na relva dos jardins e parques. Ou talvez ainda, estender-me no chão da Tate Modern… onde “sonhei” com um pôr-do-sol africano.
(…)"

terça-feira, setembro 27, 2011

Futuro próximo

Ando assim, como que arrastada pela corrente, ora me aproximo de terra ora me afasto novamente para alto mar, lá onde as ondas são altas, onde subo e desço em flutuações de humor, ainda mais enjoativas do que o habitual.
Hoje acordei muitas vezes durante a noite... desde frio, calor, mosquitos, enjoos... a minha cabeça anda às voltas e voltas, e nem este último fim-de-semana grande, nem o reiki ou o yoga, me conseguem acalmar.
Estes meses são parecidos com os que antecederam a minha vinda para Maputo. Estes meses são de silêncio, introspecção, apoio na família (que agora está a 10,5 horas de viagem), expectativa, nervoso miudinho... São o prelúdio do futuro, de um futuro aqui tão perto e ao mesmo tempo, que demora tanto a chegar.
Gosto desta emoção, mesmo que diga que não gosto. Mas gosto de verdade, porque é daqui, deste turbilhão, que sai mais uma mudança, uma daquelas que pode não ser física, mas que é claramente emocional.
O meu coração vibra ao ritmo da minha alma, quero dar um passo em direcção ao meu futuro que já está ali, mas olho em volta, pisco os olhos, tento focar e não o vejo com clareza. Para falar a verdade nem sei por onde devo seguir, nem sei como é este futuro, apenas sei que quero e preciso de avançar.
Mas, por agora, paro tudo e aguardo, aguardo que me digam algo, aguardo que um sino dentro de mim toque exigindo uma reacção.
Não sou, normalmente, uma pessoa que espera acções para depois agir, mas a verdade é que neste momento preciso que todos os restantes actores ajam para que eu, depois de reflectir (e aproveito estes momentos para isso), possa então dar esse passo grande ou pequeno, que me leva para lá, para o meu futuro mais próximo, que está já ali.

quarta-feira, julho 27, 2011

Provérbio zambeziano

“Mulher é terra.
Sem semear, sem regar, nada produz”

Um bocadinho da nossa realidade...

A lixeira de Hulene, na zona suburbana de Maputo, mesmo ao lado do aeroporto, recebe todos os dias os resíduos produzidos por esta cidade em crescimento. A vida e o trabalho ali são duros, e estão longe dos olhares menos atentos de quem vive no centro da cidade. Ali vivem-se vidas, constroem-se famílias, sobrevive-se e criam-se negócios. Ali há gente, muita gente...
A reportagem fotográfica que se pode ver no link mostra um bocadinho desta realidade.
http://www.behance.net/gallery/Trash-Land/1820899

segunda-feira, julho 18, 2011

Hoje parecia Natal...

Hoje, não sei muito bem porquê, parecia Natal.
Talvez tenha sido uma conjugação de factores, que me fizeram sentir o cheirinho no ar daquela típica manhã de véspera de Natal. Aquela manhã em que acordamos todas bem cedo, tomamos um duche e um pequeno-almoço rápido, pomos o leitor de cd ou o gira-discos a tocar aquelas músicas clássicas que já todos sabemos de cor. Aquela manhã em que decidimos qual de nós vai ajudar a mãe e qual vai ajudar a avó. :)
Hoje parecia-me esse momento em que tomo o pequeno-almoço antes de começar a preparar a ceia. E porque é que me parecia esse momento?
Acordei e estava frio, bastante frio. Mas estava sol, aquela luz no ar, aquele tom de azul no céu de inverno. O ar seco do aquecedor, os cães espreguiçam-se com aquela preguiça de inverno, eu levanto-me com um sorriso nos lábios (muito típico do espírito natalício).
Dias antes fui a casa dos vizinhos de cima onde ainda está montada a minha árvore de Natal. Decidimos que como já faltam menos de 6 meses, o melhor é ficar já montada para a próxima ceia.
E para além disto tudo, ligo a televisão enquanto tomo o pequeno-almoço, e ouvem-se as vozes angelicais dos meninos dos coros de Natal.
Por momentos, breves momentos, sorri e sonhei. Hoje para mim é Natal.
E bateu cá dentro um coração cheio de saudades... já foram 2 anos longe do calor da família, não pode passar mais um ano sem que coma o bacalhau e o peru envolvida pelos braços daqueles que sinto demasiada falta. :)
Este ano estarei aí. Feliz Natal

terça-feira, julho 12, 2011

terça-feira, maio 17, 2011

Dia 21 e 22 – da Gorongosa a ...

E é assim que a viagem termina antes do tempo... são 15h e estou no aeródromo do Chimoio, à espera do avião que vem da Beira para nos levar de volta a Maputo. O meu carro morreu... quer dizer, não sei bem se morreu, mas decidiu que era ainda muito cedo para voltar para casa, e deciciu que ir ficar por aqui mesmo, pelo menos mais uma semana. Esta manhã acordei bem cedo para fazer o último safari na Gorongosa, estava cheia de energia resultado daquela esperança que teima até ao fim, que me faz pensar que ainda vou ver leões. Mas depois de 3h vimos apenas os do costume, tirei mais umas fotos dos saltos dos antílopes enquanto fogem, e pouco ou nada mais. Arrumei tudo e fomos de carro novamente para Chimoio, no carro do Sr. Victor. Cheguei à oficina onde estava o carro, e a equipa disse-me que tinha feito vários testes e que não tinha detectado nada de anormal com o carro, nem fugas, nem ruídos, nem aquecimento, nem nada. Pedi-lhes então para fazermos mais um teste e quando dei à chave o carro morreu... e já não saiu mais dali. Com 3 ou 4 telefonemas resolvi a questão do transporte do carro para Maputo, e o local para o arranjar. Enquanto isto o Pedro foi à LAM comprar os nossos bilhetes de regresso. Havia um voo ainda esta tarde, e por isso comecei a arrumar as malas no carro com as coisas pessoais e com os artigos de artesanato que tinha comprado. O resto que era do carro, peças e ferramentes, ficou tudo. Pegámos nas malas e lá fomos nós, embora de Chimoio, sem ir a Manica, sem ver as pinturas rupestres, sem chegar perto das montanhas de Chimanimani, sem sequer ver a Cabeça do Velho ou a Mesquita. Ficámos no aeródromo horas e horas, e segundo a LAM o avião estava já a chegar. Eram 19h quando desistiram e nos levaram para o Hotel Inter. Depois de um check-in atribulado fui tomar um banho quente, e tentar lavar o cabelo com um daqueles sabonetes pequeninos... uma aventura que se traduziu num penteado mais ao estilo ninho de rato. Já a cambalear de tanto sono fui jantar, mas o jantar demorou e demorou... esperei 2 horas... já não aguentava mais e fui refilar. Lá nos trouxeram uma massa com todos e um arroz com peixe... estranho... fiquei-me pela massa. Saí depois a correr para o meu quarto onde aterrei estoirada na cama fofa e quente e onde dormi apenas até às 6h do dia seguinte.
No dia seguinte o despertar foi às 6h, nem sabíamos bem a que horas era o avião, e ao telefone disseram-me que saímos no transfer às 7h. Ok.... lá rebolei para fora da cama, tomei o duche e fechei a mala, desci e comi o pequeno-almoço muito rápido, e seguimos para o aeródromo mais uma vez. Desta vez o avião vinha mesmo.... ou talvez não... afinal estava mesmo avariado e tinha regressado ainda ontem a Maputo vazio. Esperámos e esperámos, ainda pensámos em ir de autocarro mas só saía às 17h e só chegaríamos de madrugada, por isso esperámos mais um pouco. Entretanto uma amiga minha estava na Beira e vinha em trabalho ao Chimoio, pensei que seria boa ideia aproveitar depois a boleia dela para ir à Beira apanhar o avião da noite. Foi nesta altura (eram já 11h da manhã) que nos disseram que um boeing iria tentar aterrar pela primeira vez neste aeródromo para nos ir buscar, pois éramos tantos (já estavam 2 voos inteiros ali à espera). O piloto tentou e conseguiu e 1h depois embarcávamos finalmente rumo a Maputo. Sobrevoámos esta província cheia de magia que não consegui ver, cheia de verde, de montanhas, de palhotas em aldeias perdidas, de tradições, de música, de muito que não vi e queria ver. Terá de ficar para uma próxima vez. Para além desta parte, falhei ainda a cidade da Beira, onde o meu pai nasceu, perdi também o regresso ao Bazaruto e a ida à ilha de Santa Carolina onde os meus pais passaram a lua de mel... perdi isto, mas é já tudo aqui tão perto (a 1 ou 2 dias de viagem de carro, pertinho mesmo), hei-de voltar.
Amei Moçambique, adorei a viagem, e agora no regresso sinto-me bem, sinto-me como se regressasse a casa, à minha casa de Maputo. Ainda tenho um balanço para fazer... mas agora com a minha mãe a caminho para me visitar, este balanço deverá ser feito mais tarde, quando a poeira do caminho assentar.

domingo, maio 15, 2011

Dia 20 – Parque Nacional da Gorongosa

Eram 6h da manhã matabichamos e saímos daí a 30 minutos para mais um safari, desta vez a única coisa que vimos de novo foram algumas aves, incluindo a águia pesqueira e cegonhas pretas, e ainda um hipopótamo que se banqueteava com erva fresca junto a uma das picadas. Regressámos para o acampamento para passar a hora de maior calor, em que também os animais recolhem à sombra fresca do mato. Às 15h novo safari, desta vez tivemos um pouco do mesmo, mas com mais uma manada de elefantes, e quando já ninguém esperava, um Serval, meio escondido no meio do capim. Valeu a pena, mas leões e Pala-Pala nem vê-los. Agora espero o jantar enquanto bebo mais um gin tónico e vejo pela 4ª vez o filme antigo da Gorongosa. Andam por aqui osgas, sapinhos e de vez em quanto uns Facoceros (javalis), de resto tudo calmo. Anseio pelo último safari de amanhã que tem o único objectivo de ver leões e, claro, Pala-Pala.

sábado, maio 14, 2011

Dia 19 – de Chimoio à Gorongosa

Mais um dia sem despertador, mas também mais um dia em que acordámos muito cedo, aliás cedo demais, tão cedo que o portão do backpackers estava ainda fechado e tivemos de esperar o guarda Sr. Rambo para abrir. Saímos à procura de um café aberto para tomar o pequeno-almoço mas a cidade ainda estava a acordar, andámos pelas ruas a tirar fotografias e no desafio de levantar dinheiro, visitámos a Igreja de Maria Emaculada (estava mesmo escrito assim) e lá fizemos tempo suficiente para matabichar (30 minutos de espera para 1 meia de leite e uma mini tosta mista). Era 9h quando o sr. Vitor nos foi buscar para uma viagem de 2:30 até ao Parque Nacional da Gorongosa, aquele que já foi em tempos uma reserva cheia de animais, mas que foram praticamente todos dizimados durante o tempo de fome que acompanhou a guerra civil. Chegados aqui, partimos logo para o safari das 15h às 18h. Vimos antílopes e mais antílopes, os do costume, mas nada de Pala-Pala, nem leões, ao pôr-do-sol ainda conseguimos ver ao longe uma manada de elefantes com mais de 30 elementos. Levantaram as trombas para nos cheirarem mesmo ao longe, e começaram a avançar a passo para o jipe com as orelhas abertas em tom de ameaça. O comportamento dos elefantes foi tão diferente do que tenho visto, dizem que alguns deles ainda são da época das matanças e portanto têm uma atitude mais agressiva do que o normal. De regresso ao acampamento jantámos na companhia de mais 2 portugueses que andam a recordar o país, e depois de muita conversa e gargalhadas fomos dormir já cansados.

sexta-feira, maio 13, 2011

Dia 18 – do Songo a Tete e a Chimoio

Tínhamos decidido que não iríamos sair tão cedo, porque precisávamos de descansar, mas o ritmo já estava instalado, e logo que o sol nasceu, tomei banho, peguei na mala e fui para o carro verificar níveis de tudo e mais alguma coisa ainda antes do Pedro se juntar para seguirmos viagem. Tomei um pequeno-almoço português (meia de leite e tosta mista, que me soube mesmo a Portugal), enquanto falávamos com o Sr. Teles que nos contava histórias de caçadas e pescarias e nos explicou como ver a barragem, agora de dia. Seguimos para lá e infelizmente a vista não é de todo a que esperava, vê-se só de lado, não se vê a parede toda mas só o coroamento. E tentar subir a pé um dos montes para ver melhor? Não é aconselhável sem guia, porque infelizmente durante a guerra os terrenos todos ali à volta foram plantados com minas e claro que o mapa de localização nunca apareceu e ainda não se fez desminagem a toda esta zona. Sendo assim, o melhor era seguir viagem, agora rumo a Tete, um pouco mais acima. Já não ia a Tete à mais de uma ano, e sempre que fui aterrei no aeroporto e pouco tempo tive para ver com calma porque ia em trabalho. A cidade cresceu imenso, está cheia de armazéns, carros, casas, gente, serviços... tudo e nada de interessante para fazer. Demos uma volta e parámos apenas naquela pastelaria de esquina para comer qualquer coisa, atravessámos a ponte do Zambeze, a ponte suspensa já com história e bonita sob um rio largo de águas calmas que reflecte as margens cheias de gente. A seguir a este desvio rumámos para sul, agora sim para iniciar a descida de regresso a Maputo, com paragem em Chimoio, antiga Vila Pery, para tentar ir a Manica, ver pinturas rupestres, ver a Serra Vumba, as montanhas de Chimanimani, o museu de geologia, e em Chimoio para ver a mesquita e a Cabeça do Velho (aquele monte onde ainda se fazem rituais tradicionais, como os casamentos). Mas aconteceu-nos mais uma desagradável surpresa, quando parámos a meio do caminho para novo abastecimento, o carro que vinha a andar bem, aqueceu, outra vez.... parámos 2 horas para deixar arrefecer, aproveitámos para dar uma das bolas que levávamos aos miúdos que pararam ali quando vinham da escola, enchemos o radiador de água (4 lts tinham pura e simplesmente evaporado) e depois de falar com a oficina no Chimoio, mais uma vez, fomos andando com calma tentando não imprimir nenhum esforço excessivo ao carro. Chegámos bem, sem mais percalços, demos entrada da viatura e tivemos de mais uma vez alterar os planos. Confirmei a nossa reserva para dormir no backpackers Pink Papaya, enquanto o Pedro tentava arranjar quem nos levasse ao Parque Nacional da Gorongosa na manhã seguinte. Depois de tudo tratado fomos para o Pink Papaya, largar as coisas. Seguindo algumas indicações da dona saímos a pé pelas ruas escuras da cidade à procura de sítio para comer, quando nos deparámos com tudo fechado, decidimos ficar sem jantar, e no regresso ao backpackers a Anya, aconselhou-nos então a casa de uns indianos que costumam fazer comida para levar. Entrámos pelo portão sentámos numa das mesas e comemos mesmo ali enquanto víamos telenovela brasileira (continuam fantásticas... mesmo depois de muitos anos sem ver nada do género). Tinham acabado de abrir ao público (tem cerca de 2 meses) e o serviço familiar agradou depois de tanta coisa que tinha já corrido mal (afinal era sexta-feira dia 13).

quinta-feira, maio 12, 2011

Dia 17 – de Caia ao Songo

Até hoje nunca tínhamos saído antes do nascer do sol, mas este troço da viagem era grande por isso saímos às 5h da manhã para ver se conseguíamos chegar ao Songo a tempo de ver a barragem de Cahora Bassa. A viagem foi complicada não pela escuridão mas pelo nevoeiro denso que apanhámos durante a primeira hora de estrada. Quando chegámos ao Inchope, provavelmente o cruzamento mais importante e mais movimentado de Moçambique, virámos finalmente para Chimoio de onde seguiríamos para a última subida para norte. Mal saímos da bomba de combustível percebi que estava com a direcção do carro demasiado pesada, abri o capot e tínhamos óleo espalhado por todo o lado. Um outro viajante parou ao nosso lado e logo ali vimos que estávamos sem óleo de direcção no depósito. Abastecemos, ligámos para a oficina da Toyota no Chimoio e avisámos da nossa chegada em breve. Seguimos viagem com cuidado e à chegada foi detectada em pouco tempo a fuga. Um tubo estava já “cansado” e foi substituído, logo depois seguimos viagem para o Songo, mas já com 3 horas de atraso, já não ia dar para ver a barragem de dia e muito menos para seguirmos depois viagem para Tete, onde um amigo do Pedro nos tinha oferecido dormida. A viagem foi relativamente rápida, e particularmente interessante. A paisagem mudava mais uma vez, desfilando do nosso lado esquerdo as montanhas de Chimanimani e do nosso lado direito uma planície sem fim ponteada com inselbergs. Dezenas de povoações ao longo do caminho, de onde saíam cães, porcos, galinhas e cabras, para além da “procissão” de pessoas que em todas as estradas do país percorrem as bermas, apenas andando, carregando à cabeça um pouco de tudo, ou simplesmente paradas, sentadas, como que à espera de algo. À medida que a paisagem ia ficando mais árida também as palhotas ficavam diferentes e também a organização das aldeias mudava novamente de estilo. Já ao pôr-do-sol chegámos à cancela de acesso ao Songo e à barragem, e depois de 20 minutos a mostrar identificação aos polícias e a fazer o nosso registo lá nos deixaram entrar, basicamente com a "condição" de darmos boleia a um dos polícias que ia para a vila do Songo à escola. Fomos pelo lado da barragem, que vimos já iluminada, mas apenas do lado do grande lago. Aqui o carro queixou-se da subida difícil e aqueceu... outra vez... esperámos e depois de arrefecer lá fomos para o Songo para o Centro Social onde conseguimos ainda ficar com o último quarto disponível. Demos uma volta ao Songo, ou melhor dizendo, aos Songos, visto que a vila está dividida em duas zonas, norte e sul, tão separadas uma da outra que mais parecem duas vilas diferentes. Regressámos ao centro social para jantar no restaurante “Teles”, onde efectivamente se come muito bem. Mais uma vez dormir, não sem antes abastecer a viatura com o combustível que tínhamos nos jerricans, não valia a pena andar com 40 kg a mais no carro quando afinal já há postos de abastecimento por todo o país.

quarta-feira, maio 11, 2011

Dia 16 – de Nampula a Caia

Este foi um dos dias mais cansativos de estrada, muitos quilómetros com poucas paragens, e a fazer uma estrada que já conhecíamos. Descemos quase de seguida para Caia onde abastecemos de combustível, e pouco depois entrámos no complexo Dalman, onde se produz madeira para móveis e artesanato. Tivemos a sorte de sermos recebidos pelo dono da exploração (Mr. John White) que nos mostrou e explicou os projectos que têm sido aqui desenvolvidos. Vimos o processamento de madeira desde o corte dos troncos até à secagem da madeira, passando pelo aproveitamento de desperdícios para fazer pequenas cercas de protecção às árvores jovens, a construção de colmeias como parte do projecto comunitário, e a produção de artesanato que é feito na oficina onde se treinam alguns artesãos locais que são depois incentivados a criar a sua própria empresa. Fomos ainda acompanhados por um dos guardas/fiscais desta zona que nos falou do trabalho que desenvolvem no combate a caçadores furtivos e a roubos de madeira. Vimos ainda o viveiro de árvores pequenas que são depois plantadas pela comunidade local, e durante o passeio pela mata conseguimos ver alguns antílopes que habitam no meio da exploração. Regressámos à casa no meio do mato, tomei um banho quente e já no restaurante, enquanto esperava o jantar, comprei ainda algumas das peças que são feitas na oficina pelos artesãos. Deitei-me cedo, pouco depois do pôr-do-sol, porque o cansaço já começa a pesar depois de tantos dias de viagem.

terça-feira, maio 10, 2011

Dia 15 – do Lago Niassa a Nampula

Eram 4:45 quando me foram acordar com o pequeno-almoço já servido na minha varanda. Saí do quarto e fiz o percurso pela praia, despedi-me deste paraíso e com a lágrima no canto do olho segui para Cobué onde o jipe nos esperava. 4:30 de caminho penoso e chegámos a Lichinga onde ainda houve tempo para comprar umas capulanas antes de seguir para o aeroporto. Pouco depois levantámos voo rumo a Nampula, mais uma vez, onde o meu carro me esperava agora já arranjado, para seguirmos viagem. Perdemos o resto da tarde a reaver o dinheiro do voo da LAM que tinha sido cancelado dias antes, e o resto do tempo a jantar na casa do Sporting. Ficámos em casa da minha amiga para no dia seguinte sairmos bem cedo.

segunda-feira, maio 09, 2011

Dia 14 – Lago Niassa

Às 6h da manhã acordei tranquila e preguiçosa, rebolei da cama para fora e caminhei devagar pelo caminho de areia para a praia onde estava completamente sozinha. Óculos de mergulho na cara a fui perder-me nas águas doces do Lago pela última vez. Depois de ter lido 2 livros sobre os ciclídeos no dia anterior, estava agora capaz de os observar e até identificar alguns. Só saí da água quando os dedos começaram a enrugar, e depois de secar um bocadinho ao sol tomei o pequeno-almoço, na praia outra vez... o luxo. Peguei na máquina fotográfica e meti-me no bote em direcção à Ilha de Likoma. A meio caminho parámos em Cobué para carimbar a saída do país, e à chegada a Likoma, no meio do mercado que quase nada tem para vender, encontrámos o fiscal de fronteira do lado do Malawi (a ilha de Likoma pertence já ao Malawi). Era o sr. mais bem vestido da zona, com sapatos e calças pretas, camisa às riscas cor-de-rosa e roxas, que nos disse que o posto de fronteira é móvel e que podíamos sentar ali naqueles bancos para tratar da papelada. Abriu a pasta e sacou os impressos de entrada e também já os de saída, preenchemos tudo e depois do carimbo, ficaram registadas tanto a entrada como a saída, assim não tínhamos de o incomodar mais. Demos uma pequena volta à vila para ver a igreja anglicana que estava fechada, e que só daí a 2 horas podíamos visitar, vimos o hospital e a escola, e na pensão apanhámos o barco de volta para o lado Moçambicano. Disseram-nos que valia a pena ver a ilha, mas sinceramente, era um buraco sem nada para ver ou fazer. Depois de 30 minutos a furar ondas e a apanhar com água de todos os lados, chegámos novamente a Cobué, onde tivemos de esperar pelo fiscal de fronteira que devia estar algures num bar ou em casa a descansar. Aproveitei para fotografar a igreja totalmente destruída (igreja esta que tinha sido incendiada durante a guerra), e ainda tive de aturar um polícia que me queria cobrar dinheiro por fotografar a igreja... enfim... Regresso ao Nkwichi já com o lago mais calmo, almoço tardio na praia, mais um duche e agora um gin tónico ao pôr-do-sol de céu laranja e vermelho, visto de umas pedras lá ao fundo, enquanto o Ernesto tentava roer os meus dedos antes de adormecer. O último jantar foi mais uma vez na praia e o recolher foi bem cedo, porque amanhã o despertar será ainda de noite. Deixei tudo arrumado, tomei banho e sentei-me um bocadinho a ver as estrelas, meti-me na cama e desta vez tive de por o despertador para conseguir acordar.