quinta-feira, janeiro 06, 2011

NOSSO COLORIDO MARINHEIRO MALANGATANA

Disseram-me, esta manhã, que tinha chegado um barco grande a Matosinhos. De um porto tão distante que os homens só dele sabem de ouvirem falar. Veio munido de entorpecentes luzes, lento e majestoso como uma baleia divagando em seus mares. De dentro, tambores e cânticos ecoavam, rufando e seduzindo, enquanto bailarinas líquidas, dançando, se embrulhavam em milhentas mil cores sob os pássaros gentios que as acompanhavam.

Havia sol. Estranharam os contadores, pois que não é costume em tempos de tão rígidos frios serem ali solarengas as madrugadas e que nem pássaros se agitem em tão acordados voos. A nave, continuam eles, era um gigantesco vapor feito de invulgares materiais. Estrelas do mar, búzios, escamas prateadas de peixes, carapaças de caranguejos, conchas de um ouro luzídio e muitas máscaras de variáveis rostos. Também se viam areias encarnadíssimas de uma fineza só igualável às mais longínquas sedas e madeiras rosa e negra e castanhamente canforizadas e também fortes como o ferro e negras como o bréu.

E haviam, estranhamente, musculados negros vestidos de uma roupagem quase nua, carregando consigo enormes lanças e elmos de pele e escudos de enormes e vivas cabeças de leopardos rosnando. Também, contam-se as mulheres elegantíssimas cujos seios eram da mais perfeita e dura redondez e que os seguiam agitadas entre seus gritos comemorativos.

Dizem que Matosinhos terá acordado atónita com tão invulgar espectáculo. Eram as altíssimas labaredas que ondulavam de inúmeras fogueiras crepitando sobre o mar, as estrelas havidas baixas e amarelas como o sol, como as luzes vastas de uma grande cidade, cintilantes e irrequietas, e, sobre elas, crianças rindo-se com papagaios tocando o azul límpido dos céus.



Em volta do navio, contam-se incontáveis as almadias com os seus pescadores remando e golfinhos saltando, demorada, lentamente em sua volta e que também emitiam envidraçados sons cristalizados por todos os lados em flâmulas e minúsculas bandeiras coloridas, enquanto do seu casco se estendia, até junto à terra, uma enorme passadeira púrpura ladeada por árvores frutadas e perfumadas. Sobre ela caminhava um homem negro e forte que, em meio a sonoras gargalhadas, falava e cantava, palavras e músicas indizíveis, e dos seus cabelos brancos um extenso e distante algodoal se agitava, e das mãos, enormes montanhas verdes de chá enobrecidas o guardavam e da boca, um grande rio trovejando para as duas gigantescas luas negras dos olhos aluando tudo.

Falam as mais variadas vozes que, depois deste espectáculo, do navio se fez ouvir uma estridente sirene, tão forte, tão aguda, tão capaz de fazer tremer as casas dos homens, os prédios da terra, os campos em volta. Com esse som, os cães ladraram e os relógios pararam e o mar se abriu calmo e sereno para engolir aquela visão fantástica. E o silêncio, então, fez sentir-se como uma cortante e sibilante brisa para que a cidade voltasse a dormir de novo.

Apenas mais tarde se soube, de um país haver percorrido o Mundo para embarcar o seu pintador enfeitiçado da vida, que, agora, naquela enorme nave, voltava para vivê-la na consanguinidade moçambicana das suas telas. Desse homem, nosso colorido marinheiro do mundo e de seu nome MALANGATANA, só mesmo elas, justa e merecidamente, poderão falar.


Eduardo White
5 de Janeiro de 2011

quarta-feira, janeiro 05, 2011

terça-feira, janeiro 04, 2011

Ano novo....

Uma das resoluções de ano novo era a organização do blog, ou pelo menos a actualização da informação que por aqui anda. Assim fotos, histórias, algumas palavras sem sentido e talvez alguns vídeo... vão ser "postados" mais frequentemente.
Começando pelo princípio, ou talvez pelo fim... aqui vai a descrição dos primeiros momentos do novo ano.

Dia 31-12-2010
Escritório até às 12:00, sempre com muito stress, e apesar de ter saído cedo, o telemóvel não parou de tocar, como aliás já é habitual.
Fui a casa buscar o saco de viagem, alguns jogos e um livro, confirmei a presença de chapéu de abas largas, biquínis, protector solar e uma capulana para a praia. Check... time to go.
Saída de Maputo em direcção à Macaneta, passando pelo caminho de terra batida que vai da Costa do Sol até Marracuene. O caminho fez-se sem sobressaltos e sem mais atrasos, mas já em Marracuene tivemos uma longa paragem na fila de espera do batelão.
De 30 em 30 minutos avançávamos o carro mais umas dezenas de metros na fila, e a cada paragem parávamos nós também no bar para beber Savana fresquinha.
A passagem de batelão sobre o rio Incomati foi rápida e o caminho de areia no meio de mato e palhotas foi quase demasiado rápido até chegar ao Jay Lodge.
Logo na entrada, e para refrescar, mais umas Savanas e siga para a casa.
Pousámos as coisas um bocado à pressa e depois disto foram horas no banho na piscina.
Já de noite fizemos o Brai e jantámos em comunidade, acendemos os candeeiros a petróleo e passámos a duna em direcção à praia.
Céu estrelado límpido, praia vazia, água quente, fogo de artifício em Maputo e na Inhaca, passas na mão, garrafas de espumante na outra, contagem decrescente 60, 59, 58, 57...... 3, 2, 1
Come as passas, abraços, beijinhos e desejos de bom ano, mergulho no mar e novamente mergulho na piscina.

Dia 1-1-2011
Acordar cedo com o calor abrasador, duche rápido, jogos na mala de capulana, biquíni e segue para o bar do logde passar o dia. Jogámos Pictonary, Poker e Uno, até o cansaço nos obrigar a ir para casa. Depois de uma refeição ligeira, caminhada na praia e de novo para dentro da piscina (sim... os dedos ficaram enrugados...).
À noite juntámo-nos a mais uns amigos que estavam na casa da frente, fizemos um Brai gigante acompanhado de muitas saladas e cocktails de sabores diferentes (melancia, lichias e ananás). E durante horas ao som da guitarra cantaram-se todas as músicas de que nos conseguimos lembrar... mais uma vez sob o céu estrelado e um calorzinho confortável no ar.

Dia 2-1-2011
Arrumações, mais um mergulho na piscina, encher os carros com a tralha e mudança de planos no percurso da viagem. Era suposto regressarmos por Marracuene passando mais uma vez o batelão, mas os marinheiros estavam bêbados (ainda...) e não se conseguia fazer a travessia. Segundo o boer do Lodge estavam mais de 200 carros já na fila à espera de vez para passar (o batelão leva 6 carros em cada viagem...).
Vamos dar a volta por terra? Claramente. Pedimos autorização ao complexo de produção de cana de açúcar da Maragra para passar por terra, pedimos indicações do "caminho" - picadas no meio do mato e de vez em quando passando por alguma povoação de palhotas. Depois de 2 horas às voltas completamente perdidos, lá começámos a aproximar do rio e passámos para a outra margem. A paisagem era fantástica e valeu cada solavanco e a suspensão partida.
Paragem em Marracuene para uma coca-cola gelada, e seguimos pelo caminho de terra batida em direcção a Maputo. Desta vez cortámos antes da Costa do Sol e atravessámos o bairro Polana Caniço, desaguando no Xikelene. Daqui já só havia estrada alcatroada com os típicos buracos/crateras abertos pelas chuvas, e mais 10 minutos entrávamos em casa.
O Pumba e a Matilde (os meus canitos lindos / feras gigantes) ansiavam por festinhas e passeios na rua, pediam mimos e davam lambidelas. Depois dos momentos de mimo, cama, rede mosquiteira, raquete mata-mosquitos e janelas abertas... tudo pronto para uma óptima noite de sono...

Resoluções de Ano Novo
Fiz algumas, penso que todas muito realistas, e já as comecei a por em prática. Vamos ver quanto tempo duram.
Mais novidades nos próximos episódios.

quinta-feira, dezembro 09, 2010

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Discurso de Criança



Nunca nos podemos esquecer do que éramos e do que pensávamos quando erámos crianças ou mesmo adolescentes... cheios de garra e com a certeza de que mudaríamos o Mundo. Se todos nos lembrarmos desses momentos e os pusermos em prática, pode ser que todos juntos possamos fazer a diferença.

segunda-feira, novembro 22, 2010

10 anos depois...

Cidade 1985



De manhã quando acordo
em Maputo
o almoço é uma esperança.
Mãe tenho fome
marido tenho bicha
e mil malárias me disputando a vontade.

De manhã quando acordo
em Maputo
o jantar é uma incerteza
o serviço uma militância política
do outro lado do sono incompleto
e o chapa-cem um regulado impiedoso
no quatro barra oitenta sem contra-argumento.

De manhã quando acordo
em Maputo
o vizinho já candongou o que me roubou
a estomatologia não tem anestesia
a chuva abriu dialecticamente mais um buraco na estrada
e o conselho executivo continua desdentado de iniciativas.

De manhã quando acordo
em Maputo
Porra para a vizinha que estoirou a torneira do rés-do-chão
Porra para o guarda que não ligou a bomba quando veio a água
Porra para os cem gramas de carne apodrecidos
no silêncio desenergético de Komatipoort
mais as ó eme sede de efes
e o soldado que ainda não ouviu dizer que os passeios
são lugares públicos e os fulanizados exploradores de outrora
que se preparam para cuspir na tua campa, ó Mataca
às ordens de um Mouzinho boer.

De manhã quando me percorro
em Maputo
enfio ominosamente o cérebro numa competentíssima paciência desembainho felinamente mais uma mentira diplomática
e aguardo a lucidez companheira me leia
nas acácias em sangue
nos jacarandás estalando sob a sola epidérmica do povo
que este é ainda o eco estridente do Chai
até que Botha seja farmeiro e Mandela Presidente.

Então,
com a raiva intacta resgatada à dor
danço no coração um xigubo guerreiro
e clandestinamente soletro a utopia invicta.

À noite quando me deito
em Maputo
não preciso de rezar.
Já sou herói.

Carlos Cardoso

domingo, julho 18, 2010

terça-feira, julho 13, 2010

Alguém escreveu isto e eu gostei muito......

Nada importa de onde viemos e para onde vamos, já quem somos é crucial descobrirmos.
Somos o que gostamos. Somos os nossos amigos, a nossa música, os nossos livros, a nossa comida, as nossas roupas, os nossos desportos, a nossa estação do ano, as nossas cidades.
Eu sou a emoção do perigo com risco calculado.
Sou a gargalhada como regra e o sorriso tímido noutras tantas.
Sou a satisfação de dever cumprido.
Sou a vontade de quero-ainda-muito-mais-tudo.
Sou a brincadeira-piada a toda a hora.
Sou um sorriso sem fim a quem tinha saudades minhas.
Sou um olhar de confiança a quem pede segredos. Sou amizade.
Sou uma mesa posta de coisas boas para comer.
Sou um vinho descoberto ainda melhor que os antecedentes.
Sou bacalhau à lagareiro, arroz de marisco, dourada escalada, ensopado de borrego, arroz de tamboril, sumo de laranja natural, batido de morango, gelado de cheesecake, bolo de natas e morango, tostas de chevre e rúcula em pão caseiro.
Sou a minha casa. Sou os meus livros na cama.
Sou a minha cama e dormir agrafado à(s) minha(s) almofada(s).
Sou o meu computador. Sou banhos quentes de imersão em sal e duches frios.
Sou cremes, perfume e cheiros bons.
Sou organizado não concretizando essa mesma organização.
Sou um abraço inesperado. Sou emocionado.
Sou a opção de ter de ser tudo e a recusa de ser só porque sim.
Sou uma folha em branco de um caderno cheio para trás.
Sou calar para não magoar. Sou gentilezas, carinho e mimos.
Sou uma brincadeira excitante, uma palavra no ouvido e um beijo roubado.
Sou muito desejo, muitos beijos, muita fantasia.
Sou entregar-me totalmente se me sentir seguro.
Sou uma boa conversa num fim de tarde.
Sou a saudade de voltar a ser criança quando me canso de ser adulto.
Sou orgulho. Sou racionalizar e procurar o lado bom das situações.
Sou mais calor que frio, mais silêncio que brigas, mais ler e escrever.
Sou mais presente que futuro, mais piano que flauta, mais calma que desespero.
Sou mais vinho que cerveja, mais água que coca-cola, mais cinema que teatro.
Sou mais esquerda que direita.
Sou mais jardins que shoppings, mais comida tradicional que hambúrgueres, mais crianças que adultos, mais sociologia que política, mais dar que receber, mais sentar do que correr, mais encontros que telefonemas, mais prosa que poesia, mais sonho que realidade, mais sim que não.
Sou muito, mas muito mais emoção que razão.
Sou não prender lágrimas quando emocionado.
Sou filmes de manta no sofá em dias de Inverno. Sou o escuro do cinema.
Sou gritar Golooooooooooo no estádio
Sou a música calma em altos berros em dias de arrumações.
Sou contar histórias. Sou surpreender e ser surpreendido, ouvir palavras doces e elogios sinceros.
Sou descobrir que tinha razão, sou descobrir que não a tenho..
Sou todo coração. Sou eu mesmo. Sou imaginar. Sou viver.
Gosto de saber quem sou. E tu, sabes quem és?

quinta-feira, maio 20, 2010

Chizavane - a viagem

No fim-de-semana a seguir ao meu regresso, decidi que ia por em prática a minha resolução de férias: viver, viver cada instante, viver moçambique ou onde estiver.
Assim juntei-me a uns 15 loucos, tão loucos como eu, e rumámos a Chizavane. Uma terrinha para lá de uma picada, algures entre o Xai-Xai e Chidenguele, e que nem aparece no mapa, nem tem seta a indicar o caminho.
Saí daqui com o Rui e o David (um português e um americano), depois do trabalho na sexta-feira. As malas estavam prontas, foi só sair do trabalho e correr para o jipe que nos levou por essa estrada fora. A saída foi pelas 17h45, já noite, com muito trânsito para sair da cidade rumo ao fim-de-semana. Comi uma pizza já em viagem, e já na estrada nacional 1 a conversa fluía como se já nos conhecêssemos há imenso tempo. Estávamos todos tão animados e envolvidos na energia positiva da conversa de fim-de-semana, que nos esquecemos de olhar para a estrada para ver se descobríamos a picada que nos levaria ao lodge. Depois do Xai-Xai era suposto estarmos atentos, e até estávamos, mas não vimos nenhuma indicação e decidimos parar num qualquer barraco de onde vinha música e à volta do qual uma imensidão de gente dançava desenfreadamente ao som de Bob Marley no meio do mato. Parámos, bebemos uma bazuca 2M (cerveja em garrafa grande), dançámos e no meio de muita poeirada o Rui deu uma lição de dança tribal africana que era de chorar a rir. Crianças e jovens juntaram-se à nossa volta e procuravam imitar os movimentos estranhos que aquele mulungo fazia. Saímos de lá em total euforia, o David que não queria parar e nem sequer sair do carro, parecia agora transformado com um sorriso de orelha a orelha, quase levado em braços pelos miúdos que o rodeavam. Antes de seguirmos viagem, largámos uma bola de futebol no meio da confusão de miudagem, e era só ver um monde pirralhos a correr que nem loucos para apanhar o precioso objecto, que acredito ainda hoje está a fazer as delícias dos putos da zona.
Metemo-nos no carro, e continuámos sem ver a picada, começo a ver luzes lá ao fundo e reconheço Chidenguele... nem queria acreditar, já tínhamos passado em muito o sítio para onde íamos. Ligámos aos que já tinham chegado ao lodge e a risota do outro lado do telefone confirmavam que estávamos longe, muito longe do objectivo. Voltámos para trás, mas como precisava de ir à WC, parámos numa cantina das antigas, agora reconvertida em mini-mercado e bar, com música a altos berros. Mais uma bazuca, e a procura de uma latrina (nem sequer pensei que pudesse haver mais instalações sanitárias, do que uma latrina). O empregado da cantina indicou o sítio da latrina, no meio da noite escura não via nada, dei voltas e voltas e não encontrei nada. Já em desespero, tornei-me prática, cheguei-me perto de uma árvore e num sítio onde ninguém me via, e foi ali mesmo a minha latrina improvisada.
Depois de dançar mais um bocado, apertos de mão de despedida e seguimos viagem agora para trás. Andámos, andámos e passados 50 km vimos umas luzes, havia gente à beira da estrada (como é habitual por aqui) e perguntámos a uns que também estavam de viagem onde era Chizavane, a resposta não podia ser pior... era outra vez para trás... passámos novamente a cortada... meia volta e pumba, caímos num buraco gigante resultado das obras que se estão a fazer naquela estrada. Do meio do nada surgiram dezenas de pessoas que rodearam o carro e começaram a ver o que podiam fazer. Eu saí do carro e pus-me com mais uma miúda a fazer sinais a um camião que se aproximava a grande velocidade. O David, sem falar uma palavra de português, saiu do carro e coordenou aquele maralhal de gente para pegarem no carro em braços e tirá-lo dali. Conseguimos e não partimos nada, nem sei como. Entrámos no carro e o David despedia-se de todos com abraços a fazer uma grande festa. Arrancámos mais uma vez rumo a norte. Por esta altura já íamos muito muito devagar e de olhos bem abertos para não falhar o caminho. Passados uns largos minutos fomos ultrapassados pela carrinha que nos tinha dado a última indicação do caminho e fizeram-nos sinal para abrandar. Quando estávamos ao lado deles, o condutor diz-nos "acho que o vosso caminho era ali atrás", eu nem queria acreditar, falhámos outra vez o caminho... mais meia volta e vimos uma picada mínima ao lado da placa que diz Distrito de Manjacaze. Metemos por ali e sempre em terra batida fomos desbravando mato. Estava tudo escuro como breu, quando chegámos a uma bifurcação que dizia Paradise View para a esquerda e Restaurante ... para a direita, virámos para Paradise View onde iríamos passar o fim-de-semana. Passados alguns metros a picada acabava em lado nenhum, voltámos para trás e nada de encontrar outro caminho, seguimos para a placa que dizia Restaurante e por fim metemo-nos pela praia até chegarmos ao nosso lodge. Depois de 531 voltas dentro do lodge lá encontrámos a casa 309, fomos os últimos a chegar... por volta da meia-noite. Mesmo os outros que tinham saído de Maputo às 9h da noite tinham chegado antes de nós... Mas a nossa viagem foi uma aventura a cada momento.
Depois de uns loucos terem dados uns mergulhos na piscina, jantámos o que tinha sobrado e ficámos na varanda cá fora a contar as aventuras, a relaxar e a iniciar em grande este fim-de-semana.

quarta-feira, maio 12, 2010

3 meses de altos e baixos - ou mais...

Desde o último post (já lá vai muito tempo) muita coisa se passou à minha volta e comigo. Em Fevereiro, trabalhei muito e dormi pouco. Em Março trabalhei muito e dormi pouco, veio cá a comitiva do Primeiro Ministro, muitos eventos sociais e de trabalho, seminários, recepções, inaugurações de exposições, concerto da Mariza, reuniões de trabalho, etc e tal. Em Abril 2 semanas de muito trabalho e pouco descanso, como já vem sendo hábito, e na segunda quinzena, embarque para as tão merecidas férias e resgate de horas de sono. Andava por aqui por Maputo que nem louca, a dormir uma média (quase máxima) de 4 horas por noite, muitas vezes interrompidas com telefonemas cheios de problemas de trabalho... foi desgastante, até porque este ritmo começou assim em Dezembro do ano passado.
Mas antes de chegarmos às férias, tenho que dizer que cheguei ao ponto mais baixo (em termos físicos) nos dias que antecederam a viagem. Fiquei doente com uma otite, constipação que se transformou em gripe, e a rinite alérgica atacou em força, e como não foi nada de ligeiro, fiquei 2 semanas a antibiótico e mais drogas afins, e 1 semaninha inteira de cama. Médico atrás de médico e farmácias, eram os únicos motivos para sair de casa. No fim-de-semana anterior à ida para Portugal fui tentar recuperar forças para o meu spot: Kruger Park. Domingo de manhã sentia-me bem e por isso fiz-me à estrada. Bichos, muitos bichos, e só perto da meia-noite regressei a casa. Desta vez, e porque já estão todos fartos, não mostro fotos, até porque deixei a máquina em casa e dediquei-me a fazer um filme com a minha mini-máquina de filmar. Logo que consiga fazer a edição vou tentar passar para aqui.
Dia 16 de Abril embarquei para Portugal, cheguei à noite depois de 12h de viagem (com paragem de escala). Cheguei, liguei o telemóvel e ainda antes de sair do avisão, rebentou a maior crise de trabalho que já tive. Quando cheguei ao pé da minha mãe e da minha prima/afilhada, já estava totalmente esgotada e sentia-me de alguma forma derrotada. Foi a primeira vez que me senti assim, foi o acumular de cansaço que me derrubou, mas não por muito tempo.
Durante o tempo que estive em Portugal (peço desculpa não ter dito a todos, nem ter sido possível estar com todos os que queria), dormi, descansei, fiz as coisas do costume (comprar roupa, médicos e algum/muito trabalho) e também fiz as coisas que não são costume (visitei museus, comprei um quadro, caminhei). No meio de tudo o que fiz as coisas boas e que me fizeram bem foram:
- passear com a minha mãe
- almoçar com a minha avó
- festejar o aniversário da minha irmã e da minha avó
- festejar o dia da mãe
- conhecer a casa da minha irmã (e ainda mais importante, sentir-me em casa lá)
- receber uma prenda carinhosa e surpreendente da minha irmã
- jantar com os primos
- jantar com os amigos
- aquela saída à noite entre amigos
- conhecer as bébés lindas das minhas amigas
- saber que vem mais uma barriguinha a caminho
- ser convidada para ser madrinha de um grande amigo
- ficar emocionada por andar na rua, por conduzir pelas estradas, por ver a luz de Lisboa, por sentir o cheiro do Tejo, comer naqueles sítios, estar com aquelas pessoas, viver, sonhar e descansar...
Foi tudo muito bom, estava mesmo a precisar e acho que nunca vai ser demais. Custou-me regressar ao aeroporto tão cedo, mas à medida que me encaminhava para a sala de embarque, sentia que cada passo saía mais revigorada do que antes, sentia que seria possível voltar a dormir descansada, e que conseguiria controlar melhor o meu stress diário.
Embarquei com mais leveza e com a certeza de que algumas coisas teriam de mudar na minha vida, para que possa efectivamente chamar-lhe vida e não me limite a sobreviver. Essas mudanças (re)começaram em Portugal, mas agora que as ponho diariamente em prática em Moçambique, percebo que estou bem mais calma, ponderada, e principalmente mais feliz.
Com tudo isto quero acrescentar que tenho novas histórias para contar, e espero manter o ritmo das novas aventuras. Dou só uma pista: aquelas águas límpidas e quentes que me abraçaram dando as boas vindas... hum... que bom.

quinta-feira, fevereiro 11, 2010

Desejo-te Tempo!

Desejo-te Tempo!
Não te desejo um presente qualquer,
Desejo-te somente aquilo que a maioria não tem.
Tempo para te divertires e para sorrir,
Tempo para que os obstáculos sejam sempre superados
E muitos sucessos comemorados.
Desejo-te tempo para planear e realizar,
Não só para ti mesmo, mas também para doá-lo aos outros.
Desejo-te tempo, não para ter pressa e correr,
Mas tempo para encontrares a ti mesmo.
Desejo-te tempo, não só para passar ou para vê-lo no relógio,
Desejo-te tempo para que fiques,
Tempo para te encantares e tempo para confiar em alguém.
Desejo-te tempo para tocar as estrelas,
E tempo para crescer, para amadurecer.
Desejo-te tempo para aprender a acertar,
Tempo para recomeçar, se fracassar.
Desejo-te tempo também para poder voltar atrás e perdoar,
Para ter novas esperanças e para amar.
Não faz mais sentido protelar.
Desejo-te tempo para ser feliz,
Para viver cada dia, cada hora como um presente.
Desejo-te tempo, tempo para a vida.
Desejo-te tempo. Tempo. Muito tempo!

sexta-feira, janeiro 29, 2010

QUEM MORRE?

Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê, quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo...

Morre lentamente quem se transforma em
escravo do hábito, repetindo todos os dias os
mesmo trajectos, quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor ou não
conversa com quem não conhece...

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco e
os pontos sobre os "is" em detrimento de
um remoinho de emoções justamente as que
resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos,
corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto
para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos
uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem passa os dias
queixando-se da sua má sorte
ou da chuva incessante.

Morre lentamente quem abandona um projecto
antes de iniciá-lo, não pergunta sobre um assunto
que desconhece ou não responde quando lhe
indigam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

terça-feira, janeiro 05, 2010

Recomeça...

Recomeça...
Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...

Miguel Torga

quinta-feira, dezembro 24, 2009

O que aprendi neste Natal

Aiiii.... se tivesse escrito esta mensagem ontem... seria tão negativa...
Ontem pensei mil e uma vezes, ou talvez um milhão, quais teriam sido as razões que me mantinham aqui...
Tanto stress, tanto trabalho, tão poucas horas de sono... Senti por momentos que o mundo à minha volta desabava, caía aos pedaços sem que eu pudesse fazer alguma coisa para impedir, sem que tivesse forças para me agarrar mais ao meu sonho, ao sonho de estar aqui.
Estava cansada, demasiado cansada e já sem forças para falar ou receber más notícias. Mas o telefone tocou com 2 más notícias (não eram péssimas, apenas más). Mas aquela mensagem e os inúmeros telefonemas que se seguiram para resolver estes pequenos problemas de trabalho, deitaram-me abaixo e impediram-me de adormecer.
E como precisava de adormecer... em paz... descansar... recuperar das horas infinitas que me têm faltado de descanso neste último ano.
E pensava... o que me faz ainda insistir em ficar aqui, em continuar a lutar, a remar contra a maré? Será que sou só teimosa? ou não consigo admitir que algumas coisas falhem? e pensando bem percebi que o que tem falhado e me tem deitado abaixo nada tem a haver comigo, não depende de mim.
Então deveria ser capaz de descansar, mas não conseguia. Vi e revi todos os meus passos e decisões, não vi como poderia ter feito as coisas de forma diferente, e no entanto houve carros que avariaram, pessoas que faltaram, exigências e solicitações muitas e muito grandes... passei por tudo isto no seu devido tempo, mas parece que nada disto nunca tem fim.
São testes da vida? Não. É mesmo a vida.... a vida é que é assim. Cheia de provações, testes, desafios, batalhas, avanços e falhanços, conquistas, sorrisos, lágrimas, coisas boas e coisas más.
Finalmente consegui dormir. O meu mal era mesmo sono... Acordei com o telemóvel a tocar mais um problema... mas desta vez o sol deu-me energia e sem pensar muito fui resolvendo o que estava ao meu alcance resolver.
Olho agora para trás para estes dias e para ontem em particular e vejo que fiz tudo o que podia e que devia, tudo do que dependia de mim. Por isso estou de consciência tranquila e percebo que tenho que encarar o futuro como um percurso que não posso controlar, mas que trará sempre mais um desafio.
Apesar de estar longe da família neste dia, longe do meu meio nesta época de Natal, percebo que recebi a prenda que precisava de receber: compreender a minha verdadeira dimensão no mundo, o meu percurso, os limites do meu ser, querer e poder.
Tem sido sempre em momentos difíceis que percebo algo mais sobre mim e o que me rodeia, sobre o que é importante, verdadeiramente importante. É nestes momentos que se cresce e se olha para o mundo com os olhos de criança sábia, que aprecia o sol como se fosse a primeira vez, mas que no entanto percebe que precisa dele para viver.
E com isto me retiro para a ceia de Natal entre amigos que é já daqui a pouco. Presentes tenho poucos para dar, quase nenhuns, mas levo um sorriso nos lábios e uma leveza de espírito que ontem por esta hora não conseguia ter.
Bom Natal meus queridos amigos, mesmo de longe segue aquele abraço forte do fundo do meu coração.

quarta-feira, dezembro 23, 2009

Carta para as minhas amigas

Minhas queridas

tenho montes, toneladas de saudades de todas e dos nossos encontros.

Apesar de não me "cheirar" nada a Natal, porque está calor em vez de frio, porque está sol em vez de chuva, porque não há música de natal na rua, porque não estou numa casa cheia de gente, porque não há no ar aquele cheiro de fritos de natal, porque nem sequer tenho o bacalhau de molho à espera da ceia de amanhã... apesar de tudo isto, quero desejar-vos um bom natal.
Adorei as vossa fotos, as barriguinhas redondinhas e cheias de vida, o vosso encontro que foi também quase meu nesse dia de frio... parei um bocadinho para "entrar" nas vossas/nossas conversas, e apesar de não vos ter podido dar beijinhos e rir com as nossas histórias, sinto que estive um bocadinho aí.

Por aqui vou festejar o natal em casa de amigos, novos amigos, e isso é bom, muito bom. Montei uma árvore de natal em minha casa, quase que me enche a sala de luz e de cor. Costumo dizer que não tenho tempo para comprar prendas, mas sempre o consegui fazer. Só que desta vez parece que vai ser mesmo impossível. Não tenho uma fnac ou um allegro aqui bem perto para ir a correr ao fim do dia (bem tarde) para comprar o que gostava de oferecer. Mas outros dias virão, e tal como aprendi este ano, o natal é efectivamente quando e sempre que nós quisermos.

Por isso minhas amigas do coração, desejo que seja sempre natal para vocês.

Um beijinho gigante do tamanho do mundo para as meninas lindas e as suas barrigas (com ou sem bébé).

Ana

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Árvore de Natal

Decidi comprar uma árvore de natal, mesmo pinheiro (de plástico, está claro) para montar na sala. Já que passo cá o Natal, ao menos que sinta que é Natal. Então fui ao Mica (uma espécie de Continente e Aki tudo num só sítio), depois de voltas e voltas, lá comprei o pinheiro. Com mais umas voltas comprei umas bolas e enfeites do género em dourado e vermelho, peguei também num conjunto de luzes pequeninas brancas e vim para casa. Abri o pinheiro e ficou bonito, coloquei as luzes e liguei à corrente... não eram brancas mas sim de todas as cores e a piscar... bolas... vou trocar esta porcaria. Tirei tudo da árvore e decidi que amanhã vou lá trocar. Entretanto como tinha comprado uma extensão também decidi experimentar para ver se funcionava. Liguei à corrente e PUM, apagaram-se as luzes todas... o quadro foi abaixo. Às apalpadelas lá encontrei o telemóvel e com a luz ténue consegui ir até às velas, acendi 3 e procurei o frontal que andava perdido numa das muitas gavetas desta casa. Fui ao quadro, liga, desliga, liga só um, só dois... não funciona... descobri que a arca congeladora está ligada, o quarto ao lado do meu tem luz, o modem também funciona e só uma tomada na sala... enfim, tudo o resto desligado... tv, rádio, frigorífico, fogão, termocumulador... ai que vou tomar banho de água fria... o que vale é que é verão.
Esta casa está a desfazer-se aos bocados... no outro dia caiu uma janela com dobradiças, caixilharia e tudo... não estava vento nem a janela estava aberta... enfim... não percebo.
O que será que vai acontecer a seguir? Vou de fim-de-semana para a Ponta do Ouro e preocupo-me com isto depois. :)

quarta-feira, dezembro 09, 2009

O dia de ontem

Tantas coisas acontecem todos os dias por aqui… e não consigo arranjar tempo para as escrever, mas o dia de ontem vale a pena ser contado…
Acordei com o sol a bater na janela e soube-me tão bem que já me levantei com um sorriso nos lábios… Bem cedo já estava numa esplanada a tomar o pequeno-almoço com um amigo e em 10 minutos juntaram-se mais dois. Já com a energia em cima fui trabalhar e foi sempre a correr… dia produtivo, bem mais do que o normal.
Ao almoço estava um calor quase insuportável, aliás nestes dias a pele está sempre húmida e colante, até para vestir a roupa é complicado. Saí do trabalho e tive direito a um almoço caseiro que me soube pela vida. Depois do café Nespresso fiquei a descansar um bocadinho e voltei para o escritório.
Ao fim da tarde fui ao Mica para ver rodas de contentores e andei por ali enrolada em espírito consumista natalício a escolher a minha árvore de natal e os enfeites. Percebi que não tenho jeito nenhum para isto, mas enfim… fiz o que podia.
Segui para casa já só com tempo de tomar o 3º banho do dia, troquei de roupa e fui ao Moçambique Fashion Week. Era noite de “young desinners”, com roupas um bocado lunáticas que encobriam quase por completo ideias interessantes que gostava de reproduzir (gostei de muito poucas). No fim do desfile de cada estilista lá descia o idiota de cada colecção… e era vê-los passar ao som das palmas e risotas libertadas pela audiência. 2 ou 3 eram normais, mas os outros… desde um que não podia ser mais mariconço e enfezado, ao que trazia galochas azuis brilhante e mochila do Bugs Bunny (no mínimo estranho…), ou ainda a um outro que logo a seguir apareceu com umas jardineiras do Tweety… Foi risota total.
Saímos do desfile e com o estômago já a refilar decidimos e comer qualquer coisa. “CFM. Vamos aos pastéis de massa tenra”… azar, estava fechado. Então vamos aos frangos na feira popular, o único sítio que ainda estava aberto só vendia frangos para fora… não tinha nem uma mesa para sentar. Por fim rendi-me às propostas dos que estavam comigo: Gipsy. Um bar de luz vermelha com ambiente de ver jogos de futebol na televisão, localizado na rua de maior de boites e bares de meninas… Pergunto-me eu: porque é que um sítio que tem potencial para ser bom (atenção que tem boa clientela e são raras as meninas que por ali circulam), com pizzas óptimas e funcionários que vão atrás de nós para devolver o que nos esquecemos dentro do estabelecimento (a carteira da Patrícia foi devolvida ainda nem tínhamos dado pela falta dela), sim… porque é que um espaço destes tem de estar numa rua destas? Garanto-vos que se não fosse a fome e a insistência num teria pisado aquele sítio, mas o medo que tinha de ir a esta rua, foi superado pelo bom ambiente que se sentia dentro do bar.
Daqui, já com a barriga cheia, fui ao Rua d’Arte, a uma 3ª feira… uma loucura para mim que só saio aos fins-de-semana e só muito de vez em quando. Era noite de festa para os estilistas, que depois do desfile fizeram a noite aqui. Uma amiga minha fazia anos e estava também a festejar ao som da música que não varia, mas que é o mais próximo do que gosto de ouvir, que há em Maputo. Dançar, dançar, saltar, muitos sorrisos de abraços, reencontros com amigos que já não via à muito tempo (isto de estar fechada no meu casulo não pode continuar). Adorei a noite e a companhia, o som e o calor abrasador que mesmo às 2h30 da manhã se fazia sentir. Esta tarde já tenho combinada a cervejinha semanal com os amigos no sítio do costume (Piri-piri). Vai ser bom como sempre é, aos poucos e poucos uma “família” de amigos começa a formar-se aqui, num sitio a que aos poucos vamos chamando casa, a 8500km do ponto de origem.

quarta-feira, novembro 04, 2009

O Acidente

Na 2ª feira da semana passada tive um acidente de carro.
Tinha ido de manhã à África do Sul com um motorista de pesados e um responsável da manutenção das viaturas, para ir buscar um camião que tinha ido para reparação. Teoricamente chegávamos a Nelspruit (que entretanto mudou de nome para Mbombela) e depois de almoçar iniciávamos a viagem já com o camião atrás do meu carro. Mas como na empresa só fizeram metade do que estava programado acabámos por esperar 3 horas para a viatura estar pronta. Neste tempo decidi ir comer ao 1º Mac Donalds que aqui na zona (já fui lá duas vezes… o vícios são difíceis de largar). Fui depois ao Mall (Riverside Mall – o antro de perdição para pessoas loucas por fazer compras…) é gigante e para quem não tem muita paciência para ir para sítios fechados barulhentos e cheios de gente, como eu, é quase um martírio ir lá. Mas acabei por aproveitar para comprar algumas coisas que me faziam falta lá em casa e que ainda não tinha tido tempo para ir comprar.
Enchi a bagageira do carro, e com os 2 funcionários voltámos às oficinas onde fizemos nova inspecção da viatura. Tudo em ordem, ou aparentemente em ordem, meti-me no carro com o camião a seguir-me de perto porque era eu que sabia o caminho (mal… mas ainda assim sabia-o).
Já estava escuro quando saímos da cidade (aqui está a escurecer por volta das 18h), e a estrada cheia de carros impedia-nos de seguir a mais de 80 km/h. Fizemos tranquilamente o caminho de 2 h até à fronteira, tratámos das papeladas todas do lado sul-africano e depois do lado moçambicano, e seguimos viagem.
Para quem não conhece a N4, estrada nacional que faz a ligação Maputo-Nelspruit, explico que não passa por povoação nenhuma até chegarmos quase às portas de Maputo. É só mato e mais mato. Sem iluminação na estrada e com muitos camiões e carros a circularem sem luzes. Mas esta noite até estava calma, quase não passavam carros por nós.
Já a meio do caminho íamos a 100 km/h, nada demais quando o limite é 120… eu à frente o camião atrás, felizmente bem atrás. Uma pick-up inicia a ultrapassagem ao meu carro e quando estava ao meu lado surge no meio da via em sentido contrário um homem a pé. Eu só o vi quando estava a menos de 20 m de nós. O carro que me ultrapassava, travou mas não o suficiente, e teve que guinar o volante perdendo o controlo do carro, para não atropelar o homem. Ao perder o controlo bate de lado na parte de trás do meu carro e… bem… o meu carro perdeu o contacto com o piso, saiu disparado para a faixa contrária em direcção ao mato e à valeta que não existe. Percebi imediatamente que se saísse da estrada corria sérios riscos de capotar devido ao desnível. Agarrei-me ao volante e numa cena quase de filme tentava controlar o carro impedindo-o de fazer piões completos. Consegui fazer 3 meios piões, num dos quais fiquei de frente para o camião que me seguia. Consegui voltar a virar noutra direcção, vi pelo espelho retrovisor a pick-up a cair de lado na beira da estrada, e em segundos consegui também imobilizar o meu carro, já fora da estrada.
Parei, respirei fundo… está tudo bem. O funcionário que me acompanhava saiu a correr do carro, eu desliguei o motor e tirei a chave, procurei o telemóvel que entretanto tinha voado juntamente com tudo o que estava solto no carro. Ainda a fechar o carro comecei a fazer as chamadas a pedir auxílio. Procurei o homem que se tinha atravessado na estrada, mas não havia sinal dele. Fui ter com o condutor do outro carro que entretanto saía da viatura virada de lado. Estamos todos bem…
Só na manhã seguinte quando acordei é que me apercebi do perigo que isto foi, podia ter corrido tudo muito mal, mas felizmente correu bem. Não capotei (se isso tivesse acontecido provavelmente não estava aqui hoje), ninguém se magoou (nem um arranhão), e os carros saíram a andar sozinhos… nem sei muito bem como…
Valeu-me o telemóvel, a ajuda de quem passava e de alguns amigos que me apoiaram nas horas e dia seguinte.
Estes últimos dias tenho andado muito zen… ou perto disso. Estou contente por estar bem… e penso nas pequenas coisas que me fazem bem… todas elas muito mais importantes do que a correria do dia-a-dia… Tempo de balanço mais uma vez… E depois desta continua-se em frente com mais força e mais cuidado, com um sorriso nos lábios por, tão simplesmente, ver o sol nascer, mais uma vez.

terça-feira, outubro 13, 2009

E se...

Esta expressão acompanha-me desde que me lembro de mim e significa tão simplesmente que todos os dias, a cada momento, para pequenas e grandes decisões (desde escolher o que vou beber ao almoço, qual o próximo destino de férias, onde vou morar...), vejo e revejo rapidamente todas as alternativas que se me apresentam perante o problema.
A decisão normalmente é tomada por impulso (pelo menos eu faço assim), sabendo que nas decisões mais difíceis peso sempre a razão também, mas quase invariavalmente opto pelo que me apetece, sigo o meu "feeling". Não me arrependo disso porque todas as decisões tomadas contribuíram para chegar onde cheguei hoje, para ser quem sou, para alcançar aqueles objectivos maiores da minha vida, contribuíram para que no fundo hoje seja feliz com o que tenho e esteja tranquila quanto ao caminho que segui.
Sim, sei que estou a ser confusa, mas esta reflexão começou pouco antes da minha vinda para Moçambique, numa reconstrução interior do meu percurso, e nos últimos dias tem assomado à minha cabeça de forma muito mais intensa do que o normal.
Ultimamente pergunto-me "e se tivesse ficado em Portugal?". Independentemente da perspectiva que uso para analisar esta questão, chego sempre à mesma conclusão: se não tivesse vindo, se naquele momento de decisão tivesse optado por Portugal, não tenho dúvidas que já teria arranjado um outro momento de decisão que me levaria a sair de lá. No fundo o sair de Portugal era já um dado adquirido, o lugar para onde ir é que tomou muitas formas e a escolha estava apenas dependente das oportunidades no momento. Quando Moçambique voltou a surgir no meu mapa, então o destino final desta saída ficou claro e eu vim.
Deve ter sido uma das decisões mais rápidas da minha vida, acho mesmo que já estava tomada antes de me ser apresentada a questão. Sabia que viria para cá mais cedo ou mais tarde, também isso já estava decidido, por isso fiz as malas e vim.
Agora aqui, passados 9 meses da minha estadia, concluo que a vinda e estes primeiros tempos foram "um parto difícil" por várias razões: este era um regresso cheio de emoções, um desafio profissional intenso e um desafio pessoal que perseguia há já algum tempo. Passada esta fase percebo que resisti aos primeiros choques, resisti e estou cá.
Feliz por estar onde sinto que devia, é preciso agora olhar outra vez à minha volta e arranjar novos desafios. Agora passada a fase de regresso, vamos então à fase de integração (ou reintegração). Neste cenário abrem-se novos caminhos e alternativas. Preciso de ponderar questões como "o que fazer a seguir" para todos os campos da minha vida: viajar - sim, voluntariado - talvez (mas preciso de tempo com dias fixos para o fazer), associativismo - está em ponderação, formação - claramente, desportos - quais? (Yoga parece-me uma ideia cada vez mais presente).
Mesmo antes do fim do ano já penso que o primeiro ciclo está a fechar, agora vem esta nova fase cheia de novas perspectivas que preciso de considerar. Ano novo vida nova... vamos avançar.

terça-feira, outubro 06, 2009

Marloth Park mais uma vez

Na África do Sul, ao lado do Krugger Park e a cerca de 1h30 da cidade de Maputo, existe um sítio que tem enchido os meus olhos de savana e o meu espírito de paz. Este sítio chama-se Marloth Park e aqui vive-se no meio dos animais.